Suely Nunes
A vida sexual das borboletas da Costa Rica

Por Suely Nunes
Final de semana e chove. Nesses dias a gente acorda tarde. Levantar cedo pra quê? Casa arrumada, roupa passada... Café da manhã ou almoço direto? Preguiça de abrir a geladeira. Alongamento nessa idade, é bom fazer. Dez minutos? Vamos lá, dez minutos.
Uma olhada no espelho, ai espelho meu... Cruel que só. Dou um desconto. Penso: a imagem de alguém que acaba de acordar em nada se parece à de uma artista global (em cena, porque fora da telinha qualquer estrela acorda amarrotadinha assim). O maldito devolve a imagem. Sem cerimônia vai expondo os cabelos grisalhos, as rugas, os peitos caídos, gordurinhas e gorduronas. E os detestáveis músculos do adeus. Argh!
Ah, Deus! Usar ou não usar o pretinho básico “tomara que caia” amanhã, na festa de formatura do Antônio Augusto é a questão. Ele, o Antônio, sim, pode assumir os cinquenta anos porque homem com cabelos grisalhos fica mais charmoso. Pegável, usando o dialeto atual.
Mulher com cinquenta, não conheço nenhuma. No máximo, quarenta e cinco.
Análise rápida da figura-espectro que clama por uma consulta imediata com um cirurgião plástico: corta aqui, suspende ali, costura e surge a Vênus. A dos comerciais da televisão. Pronta para os modelitos tamanho trinta e seis das confecções do planeta Marte. Não, não adianta, essas reflexões não consolam; o que eu queria era ser marciana, ter uns trinta anos a menos, dançar com Antônio Augusto a noite toda e matar a mulher dele de ciúmes. O diabo dessa crise existencial vai acabar me fazendo desistir da festa... Na FM, “Rain drops keep falling on my head” e “It’s too late”- uma volta ao passado mais que perfeito, como quer o locutor com voz de veludo. Ah, o presente é imperativo, o futuro... ui! dá um friozinho na espinha só de imaginar que há tanta coisa a fazer, ainda... Saudade de mim.
Reage, mulher!
Reajo.
Um banho. Sabonetes, sais, perfumes, cremes, um arsenal de produtos que, diz a propaganda, combatem os radicais livres e abrem as portas para a jovialidade, o encantamento e a juventude eterna. Ser capaz de arrebatar os homens por onde quer que vá soa interessante. Tenho é dúvidas sobre o que faria se tal acontecesse. Ser romântica dá nisso. Tudo hoje é “fast” e fico eu, parada no tempo, esperando poesia e pôr do sol no Arpoador... Suspiros.
Fica triste não, boba, deve ser fome. Mas, cuidado com o que vai comer: pouco sal, pouco açúcar, pouco óleo, pouca massa, nada de carne vermelha ou refrigerante, pouco café, pouco tempero, dispense tudo que tiver conservante. Melhor jejuar. Quem sabe, assim dispenso a cinta quando for usar o pretinho básico.
Jejuar e assistir o documentário na TV educativa sobre a vida sexual de insetos que vivem em rios e lagoas da Costa Rica. Hum... Mesmo entre eles há um jogo de sedução, nos movimentos, na coloração das asas... Milhares de borboletas voam frenéticas em busca de seus pares... Determinado tipo nasce com energia apenas para o encontro com a cara metade. Acasalam-se, espalham os ovos sobre a superfície das águas e morrem... Lindas e felizes. Sem cara enrugada, flacidez, celulite nem crise existencial. Não seria má idéia se toda mulher depois dos quarenta anos (é quando ela começa a tomar consciência da passagem do tempo) quebrasse os espelhos e deixasse aflorar este “viver borboleta”.
Telefone toca. Uma amiga convidando para o baile da “melhor idade” à noite, no clube. Nada contra. Mas, parece que esqueceu a última vez em que, sem cavalheiros, nos aventuramos em algo parecido. Nós sobramos e passamos a noite inteira ouvindo confidências de mulheres insatisfeitas com as voltas que o mundo dá. Não, obrigada, eu quero é me acabar com o Monobloco no Circo Voador.
Mas antes, quero usar “tomara que caia” e dançar com o Antônio Augusto.
JF/MAR/10
Suely Nunes é professora do fundamental, com graduação em Pedagogia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora-CES/JF
Email: suelynunes56@yahoo.com.br
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