Fátima Garcia Passos

Viver em paz

           Ao nos atermos à frase de Aristóteles, filósofo grego: ‘O homem é um ser político’, entendemos o quanto a coexistência com o outro não é apenas necessária, mas fundamental para o nosso crescimento. Nesta coexistência os indivíduos estabelecem entre si relações de coordenação, de subordinação, de integração, de aprendizado ou de outra natureza qualquer.

Contudo ninguém vive neste mundo de maneira indiferente, sem rumos ou sem fins. Ao contrário, a vida é sempre uma procura de valores. Viver é indiscutivelmente optar diariamente, entre dois ou mais valores. Se suprirmos a idéia de valor se perderá a substância da própria existência humana. Viver é, por conseguinte, uma realização de fins. O que realmente queremos? E por que o queremos?

Conhecer e entender o mundo sempre foram a meta de minha vida, e para isso não meço esforços, sendo assim, após passar horas observando quadros, peças, estilos etc., no museu do Prado em Madri, sai caminhando. Ouvi uma música de Vinicius e outras de Tom Jobim. Como estava no meu caminho segui para lá. Aproximei dos dois músicos e indaguei: “De que lugar do Brasil vocês são?” O mais novo respondeu-me sorrindo: “Somos argentinos”. Então falei: E eu sou brasileira. O mais velho parando de tocar perguntou: Brasileira? Mas és mui guapa. Não és negra e nem és parda. “Como?” Indaguei. Foi quando ele foi taxativo: “Ora, no Brasil só tem macaquitos”. Petrificada pensei: Meu Deus, este homem está literalmente chutando lata, falta-lhe dentes na boca e ele ainda ofende o meu país? Por que ele o faz? O que ganha com isto? Deixei no prato, os dois euros que achei que lhes devia e parti.

Uma agressividade velada ou translúcida paira no mundo. Contudo acredito que a retaliação nunca é a melhor medida e o provar que se está acima de qualquer ofensa ainda é a melhor atitude, principalmente em terra alheia. Também encontrei pessoas gentis, principalmente idosos que educadamente se dispuseram a me informar sobre o que eu indagava, e o sorriso destes muito me alegraram.

 Em geral somos céleres em julgar atitudes e neste afã de descortinar a vida não conseguimos perceber o quanto de angústia subjaz nas dobras do agir agressivo. O diferente dá medo, principalmente quando não se enquadra na expectativa estética almejada por cada um. Portanto há que se ter paciência porque qualquer embate piora a aceitação, não trabalhando a paz. Paciência é a ciência da paz e na arte da serenidade aprendemos a pensar, antes de reagir.

 Todos têm o direito incondicional de conviver e almejar o que acham melhor para si, e não há como mudar valores optando pela belicosidade. Instalados milenarmente no âmago de cada um, os juízos de valor só não podem levar o ser a si auto-violentar. Ninguém é igual a ninguém, e todos somos únicos, contudo devemos nos respeitar, respeitando a pessoa do outro, que em contra partida fará o mesmo por nós. Talvez nunca mais eu reveja estes músicos, mas sem dúvida eles jamais esquecerão a minha educação.

Segundo o escritor espanhol Miguel Angel Marti Garcia, no livro “La serenidad”: Há lições que não aprendemos nunca, talvez porque nosso anseio por felicidade nos impeça de ver o que realmente estamos vendo, sempre queremos o melhor e o melhor é uma utopia incansável. Então resta-nos o possível. Para ele, as contradições fazem parte da vida e nossa auto-estima não deve estar à mercê dos acontecimentos.

Sem dúvida não podemos evitar que nos aconteçam coisas desagradáveis, todavia podemos evitar levá-las em conta, principalmente se fazemos a leitura correta, dando a explicação adequada aos fatos. E isto porque, o peso da nossa dignidade e o respeito que nos devemos superam qualquer tribulação que ameace nos desconcertar. Isto é viver em paz.

 

Fátima Garcia Passos
Mestre em Filosofia

 
 

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