Fátima Garcia Passos
Viver em paz
Contudo ninguém vive neste mundo de maneira indiferente, sem rumos ou sem fins. Ao contrário, a vida é sempre uma procura de valores. Viver é indiscutivelmente optar diariamente, entre dois ou mais valores. Se suprirmos a idéia de valor se perderá a substância da própria existência humana. Viver é, por conseguinte, uma realização de fins. O que realmente queremos? E por que o queremos?
Conhecer e entender o mundo sempre foram a meta de minha vida, e para isso não meço esforços, sendo assim, após passar horas observando quadros, peças, estilos etc., no museu do Prado em Madri, sai caminhando. Ouvi uma música de Vinicius e outras de Tom Jobim. Como estava no meu caminho segui para lá. Aproximei dos dois músicos e indaguei: “De que lugar do Brasil vocês são?” O mais novo respondeu-me sorrindo: “Somos argentinos”. Então falei: E eu sou brasileira. O mais velho parando de tocar perguntou: Brasileira? Mas és mui guapa. Não és negra e nem és parda. “Como?” Indaguei. Foi quando ele foi taxativo: “Ora, no Brasil só tem macaquitos”. Petrificada pensei: Meu Deus, este homem está literalmente chutando lata, falta-lhe dentes na boca e ele ainda ofende o meu país? Por que ele o faz? O que ganha com isto? Deixei no prato, os dois euros que achei que lhes devia e parti.
Uma agressividade velada ou translúcida paira no mundo. Contudo acredito que a retaliação nunca é a melhor medida e o provar que se está acima de qualquer ofensa ainda é a melhor atitude, principalmente em terra alheia. Também encontrei pessoas gentis, principalmente idosos que educadamente se dispuseram a me informar sobre o que eu indagava, e o sorriso destes muito me alegraram.
Em geral somos céleres em julgar atitudes e neste afã de descortinar a vida não conseguimos perceber o quanto de angústia subjaz nas dobras do agir agressivo. O diferente dá medo, principalmente quando não se enquadra na expectativa estética almejada por cada um. Portanto há que se ter paciência porque qualquer embate piora a aceitação, não trabalhando a paz. Paciência é a ciência da paz e na arte da serenidade aprendemos a pensar, antes de reagir.
Todos têm o direito incondicional de conviver e almejar o que acham melhor para si, e não há como mudar valores optando pela belicosidade. Instalados milenarmente no âmago de cada um, os juízos de valor só não podem levar o ser a si auto-violentar. Ninguém é igual a ninguém, e todos somos únicos, contudo devemos nos respeitar, respeitando a pessoa do outro, que em contra partida fará o mesmo por nós. Talvez nunca mais eu reveja estes músicos, mas sem dúvida eles jamais esquecerão a minha educação.
Segundo o escritor espanhol Miguel Angel Marti Garcia, no livro “La serenidad”: Há lições que não aprendemos nunca, talvez porque nosso anseio por felicidade nos impeça de ver o que realmente estamos vendo, sempre queremos o melhor e o melhor é uma utopia incansável. Então resta-nos o possível. Para ele, as contradições fazem parte da vida e nossa auto-estima não deve estar à mercê dos acontecimentos.
Fátima Garcia Passos
Mestre em Filosofia






