Mário José dos Santos
FILOSOFIA E ESTÓRIA
Por Mário José dos Santos
Como é salutar, abrir os olhos, qualquer manhã, não importa se repleta de sol ou nublada e lembrar-se de um sonho bom ou da real possibilidade de retomar os projetos de vida ensejados. Como é reconfortante esse borbulhar da vida interior, rasgando os diques das dificuldades e dos desafios inerentes à condição humana. É preciso vibrar para poder viver. Essa experiência, viver, quando elevada ao nível da consciência, é, sem dúvida, uma das mais complexas. Há aqueles que confundem dificuldades reais com impossibilidades imaginárias. Onde buscar e como renovar, então, as forças imprescindíveis para sustentar-se frente aos desafios que o viver impõe de forma inevitável?
Não há como fugir à responsabilidade de ser livre e ter que escolher entre entregar os pontos ou sacudir o medo e recontar os degraus de uma conquista árida que ainda não terminou. Fato é que viver bem não é fácil, seja qual for a circunstância que nos é dada. O sol está para o corpo, como o Bem está para a vida interior. Mas, viver bem é mais difícil do que bronzear o corpo.
Faz parte das minhas reminiscências uma estória de duas moscas que sobrevoavam, no curral de uma fazenda, uma lata de leite e, por descuido, ali caíram. As duas iniciaram uma luta desesperada pela sobrevivência. Nadam, batem as asinhas frágeis o quanto podem. Nadam e... nada. Estavam ambas, no entender de suas minúsculas inteligências, fadadas à morte iminente. Uma delas, bem pessimista, como sói acontecer entre seres humanos tão diferentes, declara: é o fim, não há mais o que fazer. A outra, movida ainda à esperança (combustível cada vez mais raro), mais confiante, otimista, acreditando na possibilidade de sobreviver, bate com mais intensidade as asas. Essa persistência foi premiada. De tanto bater as asas contra o leite gordo, formou-se uma consistente bolinha de manteiga. Equilibrou-se sobre ela, secou as asinhas cansadas, deitou por alguns segundos os olhos consternados sobre a amiga semimorta e partiu para a vida reconquistada.
A estória é simples, mas seu ensinamento é profundo e denso de significado. Tem muito a ver com a postura que assumimos diante das provações e tropeços que perfilam de forma inexorável a existência humana.
É inegável o quadro de fragilidade, de impotência e de pequenez a que estamos submetidos. Não há como crescer, como realizar-se e manter-se num nível razoável de serenidade sem as necessárias provisões e providências. Pensa-se com avareza, fala-se em profusão e decide-se com medo. A falação, o mais das vezes, esconde o vazio das próprias convicções. A filosofia, nessa oportunidade, nos remete a um campo mais seguro. Ela gosta de falar sobre o que é e não sobre as aparências e o que parece ser. Quer dizer. É preciso ver bem. Com clareza. É essa a nossa realidade? Confortável ou incômoda, no momento, ela terá um desfecho que depende em tudo da ousadia de continuar batendo as asas da confiança e da coragem. Vir à tona ou submergir no leite da problemática existencial requer atitudes sábias e estas só acontecem nos momentos de sadia reflexão.
Muitas pessoas estão ficando cada vez mais intranqüilas, temerosas e agressivas. Abandonaram a visão histórica, progressiva e adotaram como norma de vida o fatual, o efêmero e o passageiro. Vejam como se pode recarregar um espírito combalido.
“Há homens que lutam por um dia e são bons; há outros que lutam por um ano e são melhores; há aqueles que lutam muitos anos e são muito bons e há homens que lutam toda uma vida. Só esses últimos são imprescindíveis”. A filosofia adverte: não basta decorar e repetir um pensamento desse quilate. É urgente vivê-lo.
Mário José dos Santos é professor da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
(Os conteúdos desta sessão são de inteira responsabilidade de seu autor)






