Victor Hugo de Castro Dutra

Sobre a estética da fome e seus desdobramentos atuais

Por Victor Hugo de Castro Dutra

VitorHugoFILOSOFIA.jpg O texto estética da fome de Glauber Rocha, toca a fundo os aspectos formadores, ou melhor ontológicos, da mendicância “intelectualóide” das nossas universidades públicas. A auto piedade dos colonizados e sua cultura pedinte, se mostra nas conversas de corredor e de cantina. Visando Egos e personas de alguns, e aos falantes sobra a alienação dos problemas da sociedade brasileira, como por exemplo o Etanol, ou como diria um professor o Etanal, que nos desce goela abaixo, e por goela entendamos o seu reverso, talvez aqui alguns freudianos diriam se tratar de uma fixação anal, mas como bom brasileiro ignoro a opinião desses colonizados alemães. Nos corredores coloniais a imbecilidade acadêmica insiste em focalizar seus discursos a personas, e não às próprias vísceras, formadas da mandioca e da cachaça; a velha mentalidade do colonizado que se omite da verdadeira essência de sua realidade, isto é, a situação histórica em que o país vive, em função de uma cultura, como diz Glauber, digestiva, tal como fomentada pela televisão pública em geral.

“Filmes bons são os estrangeiros” diriam alguns, mas estes se esquecem que estes não mostram a nossa realidade, um filme roliudiano gasta quatro, cinco, dez vezes mais que um nacional digestivo, e às vezes cem, mil vezes mais que um bom filme nacional. Deus e o diabo na terra do sol, filmado antes do texto de Glauber, em comparação ao custo da produção estrangeira é um filme barato, e ainda assim um marco na história do cinema mundial. Às vezes me pergunto se os agentes de fofocas e conversas dos corredores assistiram esse filme, e ainda se assistiram conseguiram ver nele a exposição da estética da fome à qual nossa nação é submetida, seus custos relativamente baixos, improvisos e ainda um espetáculo artístico de desmontar qualquer efeito matriz, e ainda assim “brechiano”, pois mostra a expropriação à qual o povo sofre; a luta pela terra, pelo pão de cada dia, os colonizadores seus jagunços, e os agentes do poder imperial, tal como é Antônio das mortes, jurado em dez igrejas, sem Santo padroeiro, matador de cangaceiro.

Este último pode mesmo ser comparado em vista de hoje com a figura universitária de professores que ignorando as verdades de nossa situação concreta (como o pró-álcool que vem sendo citado pelo presidente norte americano de mero etanol, seu nome científico, é verdade, mas álcool, não nos esqueçamos, é uma palavra árabe, e daí a mudança. Um projeto brasileiro de mais de 25 anos ser alterado em favor de uma convenção do linguajar norte americano!) defendem políticas de extermínio da sociedade brasileira, uma frase notória de Glauber, se não me falha a memória, é que “setenta por cento da população tem que morrer”, seremos dominados culturalmente, e depois nossas terras daí a metrópole não precisará mais da mão de obra desqualificada que poderá morrer de fome! E ainda assim quais os a-lunos (sem luz) que se arriscam a falar sobre esse dado? Quantos professores preferem a comodidade das salas de departamento e seus cafés do que expor seus conceitos sobre a nação? Onde estão os intelectuais brasileiros, que deveriam desenvolver a nação?

Mas é claro... é preferível assistir o bigue bróder Brazil a se ouvir Bautista Vidal, esse autista vital a engenharia, a energia brasileira, que expôs a nós brasileiros como filhos do sol, do Sol, desse fogo sagrado, a máquina perfeita de combustão de hidrogênio, que vem energizar as plantas, e estas que em sua beatífica virtude transforma a água absorvida do solo junto a sais minerais, combinada a CO2 produz uma energia limpa, renovável e purificadora. E a armazena para ser enfim liberada em suas mitocôndrias*, e eis novamente o fogo divino, a capacidade de combustão das plantas e seus extratos; é a possibilidade em se produzir um combustível renovável, e enfim superar a cultura mundial do petróleo, rompendo nossa fraqueza de colonizados.

Problemas esses advindos da mentalidade colonizada eurocêntrica americanizada, que insiste que o que vem de fora é sempre, e será, o melhor. A colonização intelectual parece que inibe, castra, os estudantes sérios, os professores competentes e os doutos visionários. A colonização intelectual parece mais forte que o poder natural dos trópicos, até quando os intelectuais irão importar seus pensadores e esquecer a cana de açúcar, que além do açúcar, nos dá rapadura, comida para gado, garapa, cachaça e álcool, fundamentalmente é energia, do povo e das máquinas, dos trópicos? Esses malditos intelectuais versados em Levi-Strauss, Freud, Sartre, Heidegger e outros nomes indizíveis, mas que esquecem da terrinha, do chão batido ao qual corriam enquanto garotos, e agora dito homens, se escondem atrás de europeus e americanos com suas “sábias” culturas que nem sequer por suas terras podem suprir suas reservas de energia, que é alimento e combústivel.

Nós fomos colônia, estamos colônia e eles pretendem que continuemos colônia, pois o petróleo acaba, a fome pelo poder não!

A estética da fome como deve ser vista é a resposta de Glauber, e agora faço minha, à imposição digestiva da miséria de nosso povo. A estética da fome é mostrar o pobre e sua miséria sem a maqüiagem cênica das oito horas, é indignar o povo sem vocabulários hermeticamente truncados, onde só os sábios desvendariam, é mostrar nossa nação, nosso tempo tal como é: -“Fala Severino!”
-É como as coisas são e não como deveriam ser!
“Bendito Severino!”

Vamos e venhamos, a estética da fome não é só um texto de estética, não é um tratado sobre a arte, mas sim de como essa é feita no submundo prestes a explodir, é um grito de agonia frente a realidade colonialista que tomamos goela dentro, um grito de 1964 que urge até nossos dias, o direito do povo brasileiro à terra brasileira antes que nosso povo definhe. É, para ser claro a reforma das sesmarias, a reforma agrária é dar ao povo o que ele tem direito, não, não é dar nada, é mostrar ao povo que ele vem sendo roubado, que enquanto digere seu alimento frente ao globo quadrado da televisão, ele é usurpado de sua cultura, é mostrar que ele deve se levantar e se o patrão, o coronel lhe toma os bois, deve-se iniciar a luta, mesmo que ingrata, antes que nosso povo definhe, morra de fome tendo cana em Mato Grosso. Antes que as armas imperiais desçam sobre nossos portos, ou que a cana escoe por alcooldutos (ou seriam etanaisdutos?) junto a nosso sangue.

No fundo estética da fome é a apresentação da violência, e não me entendam como puritanos que são. É a violência cultural, é o povo armado com a verdade de sua fome, e não com estatísticas, a verdade da miséria que só pode ser sanada com a devolução das terras brasileiras aos brasileiros.

Salve a verdade da estética da fome, e da miséria! Viva o poder dos trópicos e nossa chance de sobrevivência! Um viva aos que agüentaram minhas palavras! E viva aos últimos visionários que me ensinaram esta lição!


Victor Hugo de Castro Dutra é pós-graduando em Filosofia Lato Senso, pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

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